Análise de Cândido Grzybowski, sociólogo do Ibase sobre o governo ilegítimo.

Um governo constituído através de um ilegítimo processo de impeachment contra a Presidenta Dilma, vitoriosa nas eleições presidenciais, nunca poderá se considerar representante de fato da cidadania. Havia, sem dúvida, um acirramento de posições no seio da cidadania a favor e contra, um caldo político de mal estar com a política institucional e a percepção da corrupção, propício para rupturas tipo a que tivemos no ano passado no Brasil. Neste contexto, destaca-se, de um lado, o Judiciário assumindo um papel que não lhe cabe institucionalmente de protagonismo político “coercitivo” dos direitos nas operações contra a corrupção – direcionadas especialmente contra o PT, diga-se de passagem. Por outro lado, a grande mídia, especialmente a Globo, exerceu um papel fundamental para alimentar e amplificar o sentimento difuso de descrédito com a democracia e a política.  Mas o golpe se fez com negociatas e traições no próprio Congresso Nacional, subjugado por interesses privados acima das forças sociais e correntes de opinião na sociedade brasileira, epicentro da crise de nossa democracia tornada de baixíssima intensidade. Em tal processo se forjou um Governo fantoche de grandes bancos, investidores e empresas, sem vergonha de se declarar fiel à agenda neoliberal de ajuste de leis e políticas a seus interesses de acumulação.

 

O Governo Temer, desde o início, é formado e sustentado pelos corruptos que dominam o Congresso e a política brasileira. Isto ele não consegue esconder. A cada dia que passa, pior fica. Mas sua aposta política é tentar se legitimar junto à cidadania na marra, com reformas propagadas como condição da retomada dos investimentos, do crescimento e, sobretudo, da geração de empregos. Tudo não passa de uma radical desconstrução de direitos e do embrião de democracia social que havíamos conquistado com a Constituição de 1988. As reformas constitucionais e legais são um verdadeiro desmonte, com o sentido de liberar as forças promotoras do capitalismo mais selvagem, social e ambientalmente.

 

Oposição ativa no seio da cidadania contra o governo golpista e toda a sua agenda não se fez esperar. Até se destacou um ativismo de mulheres e jovens de grande criatividade e força. O que não se tinha bem claro era se a cidadania ativa era correspondida por um sentimento difuso mais amplo de oposição na sociedade brasileira. As eleições municipais do ano passado, com grande expansão do “não” – votos em branco, nulos e dos que simplesmente não votaram –, majoritário em grandes cidades, mostravam mais um mal estar com a política e os políticos do que algo mais direcionado contra o Governo Temer. Mas algo está mudando, ao menos é assim que avalio as manifestações contra a Reforma da Previdência Social e a Reforma Trabalhista, especialmente a greve do último dia 28 de abril e a última pesquisa de opinião da Datafolha.

 

O governo comemorou a expressiva aprovação da Reforma Trabalhista na Câmara, com a velha prática do “toma lá dá cá” e anúncio de retaliações aos infiéis no voto. Agora o Senado vai ter que votar a mesma matéria e ainda muita água pode rolar, pois o preço da fidelidade é mais alto, com Renan Calheiros na frente. Temer também se apressou em minimizar a importância da greve geral e se limitou a lamentar alguns atos de violência e vandalismo, mas sem mencionar o grande aparato policial montado para o dia, não para proteger a livre manifestação da cidadania, mas para reprimir. Mas bastou virem à tona os dados da pesquisa Datafolha para a euforia governamental virar uma grande dor de cabeça.

 

A oposição à Reforma da Previdência é de 71% dos entrevistados. Ou seja, a pesquisa captou o sentimento difuso contrário à reforma percebida pela grande maioria da cidadania brasileira. No caso da reforma da legislação trabalhista, 60% dos brasileiros acham que as novas leis são em benefício dos empresários e não dos trabalhadores, segundo o Datafolha. A pesquisa foi feita dias antes da greve. Quem se “ligou” ao percebido pela cidadania foi a greve geral e não o governo! Este é, na minha opinião de ativista e analista, um sinal do claro fosso entre governo e cidadania no Brasil. Para completar, o governo tem uma desaprovação de mais de 60%, uma tendência que só vem se agravando ao longo do tempo.

Aqui cabe uma reflexão sobre que importância atribuir às pesquisas de opinião, sabendo que elas são as mais vasculhadas pelos políticos e seus marqueteiros, mas tema de permanente disputa pública sobre o seu significado e credibilidade. Se favoráveis são o melhor termômetro do “estado da cidadania” em relação ao que é avaliado.  Mas, se desfavoráveis, não passam de manipulações. O fato primeiro a ressaltar é que as pesquisas de opinião são parte da política e do debate público democrático, gostemos ou não.

 

Aqui quero lembrar a importância política da sintonia fina entre representantes políticos, parlamentares ou executivos eleitos, e a cidadania, a sociedade civil organizada ou não em sua complexidade de vivências, imaginários e desejos, dada a diversidade de situações, relações e estruturas sociais, econômicas e culturais em que está inserida. Fazer política, como dizia Gramsci, é se conectar ao senso comum e dele extrair o bom senso.  Bem, “bom senso” não é algo dado e se é bom ou não depende também de interesses e forças sociais. O fato é que para conseguir orgânica e legitimamente expressar setores e formar maiorias na sociedade, as forças políticas precisam se sintonizar com o que grassa no seio da sociedade civil, buscando aqueles e aquelas que comungam e são portadores dos mesmos valores e visões que os seus. Por exemplo, pelos dados do Datafolha, fiquei muito alarmado pelo que significa para a nossa democracia em frangalhos o fato de Bolsonaro ter apoio de 15% como possível candidato à Presidência em 2018 – bem mais do que os 9% de aprovação ao Governo Temer.

Pesquisas de opinião são verdadeiros retratos de movimentos existentes em conjunturas bem precisas. Mas não vão além do que medem. Não permitem uma radiografia de movimentos mais orgânicos. Porém, como sinais de movimentos “quentes” na conjuntura precisam ser levados a sério, como, aliás, os políticos em geral fazem, negando que fazem. Até os meios de comunicação entram na disputa do que dizem os dados e na sua leitura tentam influir no debate público de forma que desequilibra o próprio debate. Afinal, a Globo veicula toda uma versão favorável à Reforma da Previdência e sua necessidade. A opinião pública da Globo parece que não conseguiu o seu objetivo de suporte midiático total ao Governo Temer e suas medidas, pois a opinião da cidadania é dominantemente outra.

 

Para finalizar, gostaria de lembrar aqui uma possibilidade que os sinais da conjuntura apontam. A greve e a pesquisa Datafolha, somadas à impossibilidade do governo e do próprio Judiciário de limitar e direcionar as investigações da corrupção só para certas forças políticas, começam a ser indícios de possibilidades para uma retomada mais vigorosa e ampla de ações de cidadania para reverter o adverso quadro político antidemocrático em que estamos mergulhados.

 

Rio de Janeiro, 01/05/17